Belo Horizonte, 31 de janeiro de 2010.
Apesar de irlandesa, a banda The Cranberries sobe ao palco britanicamente às 20:30 horas. O palco, simples, apenas com os instrumentos dos músicos e um pano escuro, se enche de música e da voz inconfundível de Dolores O’Riordan. Logo toda a banda já está a postos, tocando How, do álbum de estréia Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? e o público canta cada nota. Logo após, pulam do primeiro para o quarto CD, Bury the Hatchet, com Animal Instinct, levando os presentes ao delírio. E assim foi todo o show: a voz do público abafava a voz de Dolores, que só era bem ouvida durante as músicas dos seus dois CDs solo, Are You Listening e No Baggage, menos conhecidas, e nas várias vezes em que conversava com a platéia, falando o quanto admirava o público e o povo brasileiro e sobre o maravilhoso churrasco brasileiro que havia comido na noite anterior…
No palco, os quatro integrantes estavam na melhor forma: Fergal Lawler impecável na bateria; Noel Hogan com estridentes rifes de guitarra, tão melancólicos quanto o sorumbático baixo de seu irmão, Mike Hogan, característica, aliás, que marca toda a carreira da banda. E, em destaque, uma única voz, um único microfone, da vocalista Dolores O’Riordan, com sua voz aguda, os desafinos característicos, a dança marcante, tudo parte de um conjunto performático cheio de beleza e carisma.
O público lotou a arena do Chevrolet Hall, e fez bonito. Show de fãs, que esperaram ansiosamente pelo momento (quase inacreditável) de ver a banda ao vivo e a cores. Cantou cada música, inclusive com entonações das apresentações ao vivo da banda, conhecidas do DVD Beneath the Skin: Live in Paris, lançado em 2001 juntamente com o quinto álbum, Wake Up and Smell the Coffee (disco este esquecido pelo quarteto na atual turnê: nenhuma música tocada, nem mesmo as excelentes This is the Day ou Wake up and smell the coffee… Uma pena!). O show foi impecável. Simples e bonito, eletrizante, recheado de hits que marcaram toda a década de 90. Parecia não caber mais ninguém na platéia, até que vimos a incrível capacidade de se condensar um grande número de gente em pequeno espaço, quando, para o delírio do público, que se amassou na frente, Dolores desceu do palco enquanto cantava Ode to my Family, uma das músicas mais conhecidas da banda, e ficou a um palmo de distância dos sortudos da primeira fila. Outros hits como Zombie, Dreams, Linger, Promisses, e a desconhecida das rádios mas menina dos olhos dos fãs, Daffodil Lament (única música da coletânea Stars, lançada em 2002, que não havia sido lançada como single, mas foi a mais votada pelos fãs numa enquete feita no site oficial da banda, para completar o álbum), levaram o público ao delírio.
Juntando tudo à qualidade técnica dos músicos e a excelente produção do show, foi uma noite para cranfã nenhum botar defeito. E cantar, ao final, melancolicamente, “I’ll miss you when you’re gone”.